Jornal O Arrais – Por amor à camisola

Manuel_Igreja

S. C. RÉGUA: POR AMOR À CAMISOLA

Artigo de Opinião do Dr. Manuel Igreja

 

Estranho. Para muitos dos que fazem o obséquio de isto ler, o título escolhido para este escrito, é no mínimo estranho. Enquanto conceito, será até mesmo desconhecido. Os ares dos tempos, e mais as formas de vida que neles desenhamos, assim o ditam.

Mas há excepções, como que para mostrar que nem tudo está perdido, neste mundo materialista a caminhar para o abismo na senda dos interesses egoístas e mesquinhos. Ainda há quem conheça este modo de dizer e mais o que ele quer dizer, ousando segui-lo e dentro do possível pô-lo em prática.

Caso haja alguém que busque exemplo no campo de visão ou na memória imediata de tamanhos temeratos, que se lembre por exemplo de algumas colectividades mesmo ao virar da esquina. Quanto a mim, e sem desprimor de outras, ocorre-me o Sport Clube da Régua, mesmo confessando não ser dado por aí além a futebóis.

Mas já que estamos em maré de confissões, tenho de honestamente dizer que não é à toa nem vem por acaso esta lembrança tornada referência. Sucede que me disseram que na presente época futebolística, o glorioso clube se prepara para a disputar com atletas a custo zero. Jovens e garbosos moços que vindos dos escalões anteriores, se propõem jogar sem ganhar dinheiro. Sem auferirem ordenado, num mundo em que os sonhos povoam o imaginário de qualquer um, dentro ou fora dos relvados.

Notaram que utilizei o termo “glorioso”. Haverá até quem encontre nisso algum exagero. Mas afianço que não. Claro que não me refiro unicamente aos resultados desportivos nem às taças ou títulos conquistados. Aludo antes a um passado de quase sete décadas, na maioria das quais o clube representou aquilo que de melhor a comunidade local tinha. Anos houve em que o “Régua” tinha a então vila entranhada nele. Pelos meados do século passado, o Peso da Régua pedia meças fosse a quem fosse, e isso reflectia-se nas suas agremiações cívicas. Não havia peneiras, era um por todos e todos por um. Ainda há resquícios disso.

A prova? Olhem, por exemplo a capacidade demonstrada há dois pares de anos, mais coisa menos coisa, para se evitar e se recusar o fecho definitivo do ferrolho da porta principal. A morte fez-lhe mesmo o rente, mas houve gente com coragem pessoal para a espantar bem para longe. O mais fácil agora, é dizer que andaram e fizeram bem aqueles que lhe deitaram a mão, mas não embarcaram em projectos megalómanos ou de resultados imediatos.

Corajosa e inteligentemente apostaram na formação desportiva em todas as suas vertentes. Neste ponto, só se espera que no contexto atlético, os resultados se equiparem aos do contexto humano. Poderei pecar por excesso, desculpem, mas assim à primeira vista, atletas a deixar a idade da adolescência que se prontificam para jogar por amor à camisola, revelam, diga-se, um elevado e inegável estatuto. Mostram pinta os rapazes.

Não quero saber se os resultados serão estes ou aqueles, ou se o perigo para os interesses estabelecidos ou a estabelecer advindo da atitude dos jovens reguenses será ao ponto de fazer tudo descambar. O que sei é que pontapés na bola à parte, no Sport Clube da Régua já conseguiram uma enorme vitória. Poderá inclusivamente ser marcante, pois é daquelas que definem a diferença entre aquilo que vale ou não a pena. Pelos vistos pelos nossos lados, ainda há quem não tenha a alma pequena.

 

Jornal “ O Arrais”, Edição de 15 de Setembro de 2011

 

Dr. Manuel Igreja