Uma Página de História – Abeilard Henriques Vilela

Abeilard

Uma Página de História,

por AbeilarD Henriques Vilela

1º Guarda-Redes do SC Régua (1944)

 

Pela NET, tomei conhecimento de várias referências sobre o Sport Clube da Régua, que me emocionaram e me levam a tentar juntar-lhes outros factos que eu, na altura da criação do clube, vivi intensamente e em que tive alguma intervenção. Assim, ponho a minha memória ao serviço do clube, ajudando-o, talvez, a mais completar a sua real história. Com efeito, imaginado nas oficinas do Corgo, o Sport Clube da Régua deu os seus primeiros passos a coberto de um nome: Clube União Ferroviária. Assim imaginado, o clube nasceu, cresceu e desenvolveu-se pela prática do futebol pelos operários destas oficinas, que realizavam jogos amistosos com clubes da mesma dimensão nas várias freguesias da Régua. Inicialmente, os ferroviários possuíam uma equipa rudimentar, mas os seus dirigentes pouco a pouco foram capazes de fortalecer a sua equipa, ansiando por a melhorar gradualmente, embora com muitos sacrifícios pessoais. Os bons resultados desportivos que se alcançavam constituíam um estímulo que não deixava aparecer qualquer quebra de vontade e antes os estimulava para uma maior expansão., conseguindo uma melhor organização, que lhes permitisse ultrapassar os limites das oficinas, onde quase todos eles trabalhavam. Já no ano de 1944, alguns  daqueles dirigentes contactaram-me em plena rua da Ferreirinha, solicitando-me que eu aceitasse incorporar-me na sua equipa, porque, disseram, na sua equipa “faltava um guarda-redes”. Aqueles dirigentes “conheciam as minhas habilidades”, porque eu, com alguns amigos, tinha formado também um grupelho, que jogava com bastante regularidade com outros grupelhos das freguesias do nosso concelho. Vi, de imediato, no convite a oportunidade de se criar uma única equipa representativa da Régua, pelo que alvitrei a incorporação na sua equipa de alguns elementos com quem eu jogava e que apresentavam bastante valor. Chegámos todos a um acordo fácil, logo se pensando em tentarmos arranjar uns estatutos e dar mais projecção à iniciativa que íamos tentar levar em frente. Idealmente, estava, assim, nascido o Sport Clube da Régua. Ajudei, então, a conseguir a mobilização do meu irmão (Dr. Júlio Vilela) para as iniciativas que estávamos a tentar que tivessem êxito. De seguida, sucederam-se as colaborações de várias personalidades, como o Azevedo (da padaria), do Cassiano Pereira, do Augusto Monteiro, do Casimiro, do Arnaldo Monteiro e de muitas outras figuras marcantes do nosso meio, lembrando-me agora, também, o Bonifácio, que todas as semanas passou a cumprir e bem a missão de árbitro, sem causar reclamações que o pudessem desmerecer. A estas entidades, juntamente com os idealistas que pensaram o clube, gente mais modesta mas não menos importante, como o Luís, o Francisco Silva, o Gonçalves, o Paixão e todos os outros, que recordo com muita saudade, a nossa terra deve-lhes uma merecida homenagem. Daqui, partiu-se para os estatutos do clube, ganhando corpo a obra. Depois, conseguiu-se a sua institucionalização, sendo a fundação do clube oficializada em 30 de Novembro de 1944, a que logo se seguiu a filiação na Associação de Futebol de Vila Real. Simultaneamente, com o estímulo do povo da Régua, conseguiu-se obter o terreno para o novo campo de jogos, a que foi dado o nome de “Artur Vasques Osório”, homenageando um notável desportista da nossa terra e sempre recordado, enquanto que o pequeno “campo das Figueiras”, próximo do túnel do Salgueiral, ia permitindo que fizéssemos os nossos jogos, semana a semana.

Interessante será repor a questão de se saber quem foi o primeiro presidente, de facto e de direito, do Sport Clube da Régua, que, repondo cronologicamente a ordem das coisas, foi, ao que creio, o Dr. Júlio Vilela, correspondendo ao anúncio oficial do Diário do Governo, embora, provisoriamente, o meu tio Morais (da Farmácia Arrochela) tenha assumido essas funções dentro do período que antecedeu a publicação dos estatutos, como já antes tinham exercido funções correspondentes alguns dos ferroviários já citados.

Assim, aglomerando-se estas diversas condições favoráveis, rapidamente o Nobel clube se viu projectado, tanto mais que se recrutaram novas adesões de valiosos futebolistas de perto da

Régua e que ajudaram a muitas outras vitórias nos campos de futebol. Foi o caso da fixação na Régua do Domingues “Peseta”, habilidoso jogador vindo da Académica de Coimbra, que, com os seus saberes, nos serviu como treinador, só não alinhando na equipa por causa do seu “joelho de água”. Foram também os casos do atlético Santos Melo e do Toni (ambos do Pinhão), do habilidoso Manuelzinho (de Lamego), do Colega, um rapidíssimo defesa, que, juntos aos naturais da Régua, como o “meu” óptimo defesa Jerónimo, como o Carriço, como o Gervásio, como o Canarinho e o Júlio, alem de outros, todos meus companheiros na defesa do clube e que tantas vitórias nos proporcionaram.

Finalmente, quanto a mim, pouco tempo de presença tive no clube, que a vida cedo me atirou para fora da Régua. Quero, porém, ainda relembrar que, na altura, todos os jogadores eram amadores e, quando havia qualquer subsídio, ele era apenas um auxílio eventual. Eu, por exemplo, fui auxiliado pelo Azevedo, que me deu umas botas de futebol, que nem eu, nem a equipa tínhamos. Foi uma deferência que nunca mais esqueci.

Bons tempos foram aqueles. Viva o Sport Clube da Régua!

 

Texto enviado pelo Exmo. Sr. Abeilard Henriques Vilela, para o SC Régua em 16 de Setembro de 2011